22 dezembro 2013

Nação Crioula (José Eduardo Agualusa)

[Senta que lá vem história...]

Plantão em fim de semana não é a melhor coisa do mundo; não vamos ser hipócritas aqui e dizer que quando sai a escala e vejo meu nome em um sábado ou domingo, um sorriso nasce em meu rosto. Não, meus caros. Plantão em final de semana é um mal necessário e parece que o corpo sabe disso: sair da cama bem cedo é uma tarefa hercúlea, por isso, rezando por 12 horas tranquilas, sempre levo um livro e/ou o kindle. Naquele sábado, nenhuma leitura fluía, até que, abrindo o livro de recados, despretensiosamente, vi a mensagem de uma colega de trabalho para a outra, informando ter deixado um livro no armário.

Foi assim que eu me encontrei em Agualusa.

Sim, eu me encontrei. Sabe aquela sensação de quando você começa a ler e quer sorver cada palavra, cada pensamento, cada expressão? Quando, espontaneamente, você sorri de tanto contentamento por ter encontrado alguém que escreve com tanta beleza, doçura, sentimento e talento? A escrita de Agualusa, para mim, foi arrebatadora, em tal medida que li suas 212 páginas entre um final de manhã e uma tarde.

Do que trata o livro: Nação Crioula conta a história de Fradique Mendes, um português, amante de viagens, que parte para Luanda e lá descobre não só uma geografia diferente, mas, uma cultura, um povo e uma forma de viver, ser e amar que desconhecia. Através de suas andanças e pensamentos, conhecemos a história de Ana Olímpia, uma mulher forte, marcante, filha de rei, mas fadada a ser cativa de muitas e cruéis formas. Em alguns momentos, a narrativa e o enredo de Agualusa me lembravam histórias do sertão, com os forasteiros vindos não sei de onde, as reviravoltas da vida, o sofrimento que nunca cessa, mas sempre enfrentado de cabeça erguida.

Curiosamente, assim como Drácula, a história é toda contada através de cartas que vêm e vão, entre Fradique, Ana Olímpia, Eça (não me lembro agora se há outros) e assim vamos conhecendo a vida, os percalços e as esquinas onde se desenrolam os acontecimentos. Nação Crioula é uma narrativa da vida de duas pessoas, que se aproximam e se afastam, ao sabor da maré. Há passagens mais fortes e outras mais miúdas, ambas guardando seu quinhão peculiar de grandeza.

Muitas coisas me encantaram nesse livro, desde a edição da Língua Geral (morram comigo diante dessa capa incrível!), tão rica, bela e única quanto a própria história e seus personagens, até a forma e a frequência com que Agualusa fala dos “céus de África”; uma beleza que angustia, oprime, liberta, encanta, emociona e fica gravada no peito e na memória de quem conhece. A minha vontade foi ir ali, na CVC, e pedir um pacote parcelado (sou assalariada, infelizmente ainda faço contas e parcelo compras) para Angola, conhecer o tal céu desaforadamente belo.

Se você nunca leu nada desse autor, eu recomendo que você repare isso agora. Você merece esse bem. Há dias eu pedia um livro que me arrebatasse! Parece que os anjos que protegem os leitores ouviram meu pedido. Obrigada!

P.S: ainda não tenho um exemplar pra chamar de meu, mas é evidente que terei.

Curiosidades: vocês sabiam que Fradique Mendes é um personagem de Eça de Quiroz? E que o próprio Eça foi tornado personagem, por Agualusa, aqui em Nação Crioula? Pois é.

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