03 agosto 2012

Substâncias perigosas (Pedro Eiras)

Olá pessoas!


Hoje tem resenha de “Substâncias Perigosas”, livro enviado pela editora parceira:



Assim que li no release a frase “Em que se explica por que meios os livros matam os seus leitores & onde se dão variados & mui instrutivos exemplos ao alcance do comum dos mortais”, subtítulo do livro, fiquei morrendo de curiosidade para conhecer as supostas 100 lições que provariam essa tese. Mas, gente, com toda a sinceridade, eu vou falar: não sei se entendi esse livro.

É sério e eu explico o porquê:



Quando solicitei, pela descrição, achei que seria uma coisa mais simples, uma espécie de brincadeira acerca do poder da literatura. A contracapa dá a entender isso, olha só:

Alguns livros convidam a mater. Outros, ao suicídio. Outros ainda, mais sutis, limitam-se a relativizar a morte – meio caminho para morrer. Todos são substâncias perigosas, como os medicamentos. Só deveriam ser comprados com receita medica ou atestado de robustez intelectual

E, eis que à medida que as lições iam correndo, eu me via mergulhando numa análise muito mais densa do que imaginava. Há lições curtinhas, de uma ou duas linhas e outras de algumas páginas. O autor usa de bom humor? Sim, bastante. Houve momentos em que ri a valer. Além disso, para Pedro Eiras, o leitor não tem direitos ou qualquer tipo de liberdade, uma vez que bebe da fonte da literatura, torna-se refém:

A leitura é monacal: inventa um claustro, regras, votos. Exige ao leitor que morra para o mundo, que se emparede entre as páginas”. P. 21.

Funde-se com as histórias e, pior ainda, permite que elas assumam seu lugar. Ser leitor é deixar seu eu ser invadido por todos os personagens e lugares das histórias lidas.O autor apresenta os livros como Pharmakon, palavra grega que tanto pode ser traduzida como veneno quanto como remédio, ou seja, a literatura terá seu efeito de acordo com a escolha e dosagem.

Achei essa ideia brilhante, mas o que me deixou meio confusa é que o autor, além de citar referências mil (Umberto Eco, Freud, Sêneca, Platão, Baudelaire, Goethe, Camus, Saramago, Sade....ufa! E muito, muito, muito mais...esses citados, pelo menos eu conheço...rs), o que seria fascinante se eu conhecesse a maioria delas (o que, obviamente, não me impede de ter me acabado nas anotações e estar com pilhas de coisas pra pesquisar!), também passeia por regiões complexas como a filosofia, a psicanálise, sociologia e outros campos de saber. Ele faz reflexões e análises super profundas e eu não sei se alcancei todas elas.

Destaco uma coisa muito curiosa: eu não fiquei surpresa com o fato de que a temática fortemente presente neste livro seja a morte, afinal, o subtítulo já nos indica isso, mas com a forma de abordagem e tratamento da morte. Além de dizer que a literatura tem muito a nos ensinar sobre ela, sobre seu caráter natural e contra o qual não podemos lutar, o autor também fala das formas de morrer e suas implicações: as implicações do suicídio, a morte por amor, o assassinato como a mais bela das artes, a transmutação da morte enquanto fenômeno social para fenômeno biológico, a nossa tentativa de alcançar a imortalidade etc:

Talvez, em suma, um pouco de animalidade simples nos recordasse que somos criaturas mortais”. P. 55.

E, se a vida é sonho, talvez se possa dizer ainda que nós, a nossa vigília, a nossa cultura, toda a literatura e a lógica, a matemática e o canto, a ignorância e a própria psicanálise, tudo isso – é só um acidente, um complexo acidente que nos impede de sermos nada, uma historia contada por um idiota, cheia de som e de fúria, um intervalo entre nada e nada, e nada mais. P. 120.

Então, se você quer apenas um passatempo, creio que este livro vai fundir um pouquinho a sua cabeça, nesse caso, em busca de leveza. Não acho que seja o livro mais recomendado para você ou para este seu momento.

Entretanto, se você quiser algo mais profundo, uma análise mais ampla (e bem difícil de entender em alguns momentos!) e com a costura de vários saberes, escrita de forma interessante, original, com ideias inteligentes e passagens que te pegam pelo pé e lhe fazem pensar bastante:


Continuamos, isso sim, a inventar diabos, bruxas e lobisomens – mas eles não se escondem atrás das árvores das florestas, que deixaram de existir. Escondem-se atrás da próxima esquina; enviam e-mails, sabem o nosso número de celular, de cartão de crédito p.189.

 ...pode mergulhar aqui, pois, ao que me parece, Pedro Eiras sabia bem o que estava fazendo!


E, não esqueçam: todos os livros são perigosos!

*P.S: eu vou reler o livro. Pode ser que eu venha aqui e diga que estava em estado alterado de consciência e, dessa vez, tenha entendido tudinho...mas, eu duvido um pouco*

Um beijo e até mais!

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