07 junho 2012

Resenha: O Guardião de Livros

Olá pessoas!

A resenha de hoje é sobre "O Guardião de Livros", da autora Cristina Norton, primeiro livro enviado pela editora parceira Casa da Palavra






A autora:



Cristina Katz Norton nasceu a 28 de Fevereiro de 1948, em Buenos Aires, Argentina. Reside há mais de 30 anos em Portugal e optou pela nacionalidade portuguesa. 

A sua obra engloba a poesia, o romance e o conto, da qual destacam-se os livros O Afinador de Pianos, O Lázaro do Porto, Os Mecanismos da Escrita Criativa, O Segredo da Bastarda, A Casa do Sal e agora O Guardião de Livros. 








A edição:

Um primor. Se eu dissesse qualquer coisa menos que isso, seria injusta. Confeccionado em papel pólen (agora que sei o nome, descobri que esse é o amor da minha vida!), com uma capa belíssima e letras douradas no título, o livro é realmente muito bonito. Esse comentário é fruto de alguém que aprecia não apenas ler, mas também é admiradora feroz do objeto livro (mas, disso vocês já sabem...rs). 


Mas, acontece que O Guardião de Livros é mais que apenas uma capa bonita. Eu me interessei pelo livro ao ler a sinopse, mas, na verdade, ele oferece uma surpresa ainda muito maior do que aquelas poucas linhas me prometiam.





O livro:

Quando o peguei, pretendia apenas folheá-lo, ver seu estilo, mas acabei lendo 3 páginas e essas me levaram a outras e mais outras e eu não tive opção a não ser seguir na leitura. Servidão voluntária. E feliz.

A forma de narrativa de Cristina Norton é completamente envolvente; ela utiliza construções de frases um pouco diferentes das narrativas às quais estou acostumada (ou seja, mais direta), fazendo inversões na estrutura das frases, dando seguimento em outras, de modo que no início senti certo estranhamento, mas depois vi que ali residia o estilo da autora, sua marca. Além disso, ela consegue escrever passagens extremamente tristes, até mesmo cruéis:


"Assim, sem forças para se debater nem gritar a atiraram ao mar. O que me ficou dela o restante da viagem foi aquela bosta líquida e fedorenta que foi secando e mirrando entre as grilhetas vazias. Mas essa coisa imunda, como tinha saído do interior da minha mãe, fazia-me companhia e, olhando para aquilo, ia buscar forças para suportar a dor da solidão, da fome, das feridas nos pulsos e tornozelos". p.14.


para, em seguida, trazer um toque sempre ácido, deliciosamente irônico:


"Agora percebo que não fomos escolhidos por nossa cor de pele, mas porque ninguém nos defendia. Será que nos conventos, enquanto as freiras preparavam doces deliciosos com ovos e muito açúcar, alguém sabia que aquele granulado que lhes adoçava os dias estava machado por muitas mortes?". p.15.

O pano de fundo da história é a vinda da família real para terras brasileiras, enquanto Napoleão invadia países da Europa. O personagem principal é Luis Joaquim Marrocos, um jovem português que trabalha na Real Biblioteca Nacional de Portugal, seguindo os passos de seu pai, um homem cuja vida foi devotada aos livros. O jovem levava uma vida pacata, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, até o dia em que foi designado para acompanhar caixotes de livros enviados para o Brasil.

O ritmo da narrativa é bem dinâmico, com narradores que se revezam: Marrocos, A Escrava, O escravo, narrador oculto e onisciente, a esposa de Marrocos. Os capítulos são curtos; em alguns deles Marrocos narra as sua impressões, seja de sua vida em Portugal, os arranjos para sua vinda ao Brasil, até as impressões sobre a vida na colônia. Vale destacar a narrativa sensível, mas também debochada, crua, do choque cultural vivido pelo personagem. Acompanhamos as relações entre Marrocos e sua família através das cartas transcritas – um recurso muito interessante e que dá mais tempero à história, suas relações com os brasileiros, a relação consigo mesmo (e aqui vemos a evolução do personagem e sua busca por pertencer, de fato, a algum lugar). Há também capítulo intitulados “Crônicas da Corte”, sobre os quais a autora nos deixa em suspenso, questionando o fundo de verdade naqueles textos.

O Guardião de livros é uma espécie de homenagem aos amantes de livros. Já no título isso fica claro e, depois, na descrição de Marrocos, em várias passagens de sua vida, fica clara a sua devoção à leitura e ao objeto livro, em si, inclusive com críticas àqueles que não partihavam da sua paixão (discordo nesse ponto porque acho que cada um ama o que quiser e puder!).

Como eu já falei em diversas resenhas, amo histórias bem contadas, costuradas, envolventes e, para isso, é fundamental ter bons personagens. Esse livro tem. Marrocos é um homem comum e, ao mesmo tempo, um homem cheio de facetas, nuances; ao longo da história conhecemos vários Marrocos, vemos sua evolução, acompanhamos seus conflitos, seu questionamentos. Não é um personagem casrismático no sentido de que você vai se encantar de cara e torcer por ele, mas no sentido de que ele vai lhe cativando página a página. Eu senti muita coisa enquanto lia: raiva, indignação, escárnio, pena, compaixão, simpatia. Ri com sua hiponcondria desenfreada, e, como psicóloga, achei excelente as descrições de seu comportamento; chorei com seu sofrimento, pelos mais diversos motivos.

Minha nota de destaque é o capítulo A Escrava. É o primeiro capítulo e foi ali que aconteceu a mágica – o livro me pegou pela mão e não me soltou...nem mesmo agora, depois de certo tempo. Gente, aquilo ali é lindo demais. Que força, que capacidade de escrita. Que escolha de palavras. Como se não bastasse, Cristina Norton ainda coloca epígrafes de Jorge Luis Borges e Mia Couto! O guardião de livros é mais que recomendado. Foi, sem dúvidas, uma das minhas melhores leituras do ano.


Bônus: Leia aqui um trecho do livro! 
http://www.casadapalavra.com.br/_img/pdf/419/1.pdf

2 comentários:

Millena Bezzerra disse...

Esse carinha foi um dos mais importantes personagens na ocasião da vinda da familia Real ao Brasil, em 1808.
Chegou odiando o país, depois se apaixonou por uma brasileira e "tornou-se" brasileiro também!
Escreveu muitas cartas ao seu pai (que também fora arquivista da biblioteca real) e hoje são fontes históricas acerca dos costumes da época e desenvolvimento do Brasil, infelizmente o próprio Joaquim não guardou as cartas que recebeu em reposta do pai (o que é estranho porque ele sabia a importância de documentos assim).

Anônimo disse...

No fim do livro relata o destino que as cartas levaram...