19 março 2012

Resenha - A vida em tons de cinza

Olá pessoas!

Hoje teremos resenha do livro A vida em tons de cinza, da autora Ruta Sepetys, gentilmente cedido pela editora parceira:

 

Como eu conheci a autora:


Através do booktrailler no site da Editora Arqueiro. Vale muito à pena assistir:





Não seria o tipo de literatura que eu procuraria numa livraria ou seguiria uma indicação de leitura, mas quando a editora mandou a lista de opções, comecei a ver um por um no site. Cheguei ao booktrailler e fiquei em um misto de emoção e curiosidade extrema para lê-lo, contando os dias para que chegasse. Confesso que ainda me restava uma ponta de receio quanto ao tom que autora daria ao livro, pois, não raro, ao contar histórias dolorosas, os autores caem no pieguismo e drama vazio. Felizmente, isso não aconteceu. E olha que esse é o primeiro romance dela.





A edição:

A edição da Arqueiro foi super cuidadosa. Revisão perfeita, papel de excelente qualidade, capa belíssima. Aliás, o que me atraiu primeiro foi a capa, marcada por cores frias e representando numa imagem simples, porém forte, a trajetória de sofrimento e esperança percorrida pelos cidadãos dos países bálticos, banidos do mapa em 1941 e somente recuperando dua independência em 1990.






O livro:


“ELES ME LEVARAM de camisola”.

É assim que o livro começa. A primeira frase é curta, seca, direta e marcante. Ali, Ruta Sepetys já dá mostras do tipo de história que vai contar. E da intensidade com que irá fazê-lo.

A história trata da ocupação Soviética dos países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), que começou em 1939 e culminou com o início das deportações em 1941. A lista de pessoas deportadas contava com professores, advogados, bibliotecários, militares, médicos, empresários, ou seja, pessoas dos mais diversos ramos de atuação, mas que foram consideradas como antissoviéticas, devendo, assim perder todas as suas posses, e ser levadas para campos na Sibéria.

Esses mapas mostram a rota percorrida pelos deportados e dão ideia do quão longe de casa eles estavam:


Nesse macrocontexto, há o microcontexto da história de Lina Vilkas, uma jovem de 15 anos que sonha em ser artista e se prepara para estudar Artes na capital. O livro é narrado na perspectiva dela, como se Lina estivesse nos contando tudo que viu, ouviu, sentiu.

Ruta Sepetys conseguiu contar uma história dura, mesclada de momentos de delicadeza; conseguiu descrever com detalhes toda a crueldade da pulverização desses países e seus povos, com cenas chocantes, que me roubaram o fôlego e me deixaram em lágrimas e sucessivos nós na garganta.
 

Mas, sabe o que foi cativante? Ela não o fez de modo a chocar gratuitamente. Sua capacidade descritiva me permitiu ir ao lugar onde Lina, sua família e os demais deportados estavam, me fez sentir o frio cortante da Sibéria, temer pelo silêncio aterrador, corar de vergonha pelo constrangimento, tremer de raiva diante humilhação.

Além da descrição muito bem feita de cenas e ambientes, a autora construiu cada personagem à medida que a história se desenrolava, como se todos flutuassem no continuum coadjuvantes-protagonistas. Eu não vou nomear ou descrever nenhum deles, pois, para mim, todos foram fundamentais e a surpresa sobre cada um deve ser saboreada por vocês.

Ao mesmo tempo em que havia uma carga brutal de crueldade nos acontecimentos, havia compaixão, nobreza de atos e demonstrações de amor e respeito ao próximo que me deixam emocionada ainda agora, enquanto escrevo esta resenha, apenas por lembrar.


 

A autora usou um recurso interessante: intercalou capítulos que tratavam dos acontecimentos presentes na vida de Lina e acontecimentos de seu passado, lembranças que ela evocava para se acalmar, acalentar ou apenas memórias que explodiam devido ao contraste com sua vida no momento. Essa quebra de ritmo, na verdade, dava mais ritmo à história na medida em que nos contava mais sobre quem eram aquelas pessoas e que a tomada de posses materiais era nada comparada à perda emocional que elas tiveram.

 


Como eu me sentiria, se de uma hora para outra, perdesse a minha casa, os meus amigos, a minha vida conhecida...se todas as minhas referências fossem apagadas e eu nada tivesse além de uma vontade desesperada de sobreviver? 





Eu me fiz essa pergunta muitas vezes enquanto lia e a angústia da ausência de respostas era aplacada pelos capítulos seguintes, os quais eu devorava sem me dar conta das páginas que corriam com pés de vento.


Eu gostaria de terminar essa resenha afirmando que o livro superou (e muito!) as minhas expectativas. È visível o sério trabalho de pesquisa da autora. Eu super recomendo, tanto para aqueles que gostam de história e têm interesse em conhecer melhor as coisas que aconteceram e ainda acontecem nesse nosso vasto mundo, quanto para aqueles que apenas admiram uma boa e bem contada história.






Curiosidade:
O pai da autora é filho de um militar lituano que fugiu para um campo de refugiados na Alemanha. Seus parentes não tiveram a mesma sorte e muitos foram deportados e presos. Eu realmente nunca tinha ouvido falar nos acontecimentos relatados no livro. Sabia de Stálin e suas atrocidades, mas era como se aquilo fosse algo tão distante, em termos de tempo e cultura, que acabava não me alcançando. O surpreendente, além da excelente capacidade narrativa da autora, foi perceber que aquilo tudo ocorreu praticamente ontem e que o sofrimento é universal, você pode sentir compaixão pelo outro, independentemente da sua origem, etnia ou que quer que seja.

A cada acontecimento que Lina presencia, ela desenha. Esta é sua forma de lidar com a montanha russa de sentimentos e a loucura cruel em que se transforma sua vida. Eu gostaria MUITO que essas ilustrações estivessem presentes no livro, porque, pela descrição das imagens, acho que seriam belas, no seu horror, confusas e cativantes como as obras de Munch*, pintor preferido de Lina e sua inspiração.

* As obras inseridas na resenha são de autoria de Munch. Na sequência de imagens: 1. O grito; 2. Melancolia; 3. Gólgota.


Ficha técnica:

Livro: A vida em tons de cinza.
AutoraRuta Sepetys.
Tradução: Fernanda Abreu.
Editora: Arqueiro
Ano: 2011.



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