15 março 2012

Resenha - Marta

Olá pessoas!


Hoje temos resenha do livro Marta, do autor Breno Melo. Gostaria de lembrar que este livro faz parte do book tour que o blog está organizando e, por isso, assim que as participantes forem publicando suas resenhas, os links serão adicionados à página de apresentação do book tour. Basta clicar no banner aqui ao lado e vocês terão acesso a todas elas.


Como eu conheci o autor:


Breno Melo entrou em contato comigo através do blog e propôs que eu conhecesse seu livro, organizando um book tour ou participando de grupos que estavam sendo montados. Eu senti um monte de coisas: fiquei super lisonjeada com o convite e orgulhosa do blog que, afinal, tinha começado tão despretensiosamente e começava a ganhar um reconhecimento bacana. Ao ler a sinopse do livro e ver que a história envolvia uma personagem com transtorno afetivo bipolar, não pude segurar o lado psicóloga e fiquei interessada. Assim começou a caminhada de Marta com o Dignidade não cabe aqui.



A edição:

Visualmente, a edição da Schoba está impecável. As páginas são de excelente qualidade, o acabamento do livro está irretocável. A capa traz uma ilustração belíssima de Van Gogh e foi arrematada com a fonte escolhida para o título do livro, semelhante à caligrafia humana. Achei interessante, psicologicamente falando, ter o título e, ao fundo ter, em forma de sombra, a mesma palavra escrita em sentido contrário; isso me remeteu tanto às alternâncias da bipolaridade (mania e depressão), transtorno da personagem principal, quanto ao fato de que nós, humanos, com ou sem transtorno psiquiátrico, somos sempre permeados pelas nossas sombras.


Infelizmente, identifiquei a falta de algumas vírgulas importantes, bem como a omissão de algumas letras.



O livro:


A história trata de Marta, uma jovem portadora de transtorno afetivo bipolar, que vive em uma pequena cidade da Argentina, mora com seus pais e tem duas grandes amigas com quem partilha grande parte de suas experiências, boas e ruins. Marta é apaixonada por João, um ex-namorado da escola e sofre pela dificuldade em superar essa decepção e seguir em frente. Claro que há muitos outros detalhes, mas é claro que eu não vou acabar com a surpresa, né?

Vamos às reflexões sobre o livro: Marta me deixou confusa por uma série de fatores, sendo o primeiro deles a afirmação de que a protagonista sofre de transtorno afetivo bipolar.

Achei importante, logo no começo, quando o autor nos avisa que o livro pode ser lido de diversas formas. É possível ter a leitura médico/psicológica, a leitura filosófica e a leitura leiga. Eu tentei fazer essa última, mas é impossível, depois de anos de estudo e treinamento, deixar de lado a lente da psicologia.

Não sei se foi fruto da minha leitura, da minha interpretação dos fatos ou observação, mas fiquei insegura quanto ao diagnóstico da protagonista. Não vou me alongar sobre as características psicopatológicas do transtorno, mas a sua denominação deve-se, basicamente, à alternância entre os estados de mania (uma espécie de “alegria”, “euforia” ou “agitação” exagerada) e depressão. Essa é uma definição genérica, quase receita de bolo, mas eu a cito porque não identifiquei a fase maníaca em Marta. Vi momentos mais alegres, ou melhor, momentos em que ela tentava se animar diante de algum evento que trouxesse esperanças em relação ao ex-namorado, mas nada significativo ou destacável.  A depressão, em seu sentido mais geral, foi mais palpável para mim, especialmente nas ações motivadas pelo “empurrão” de outros, pela falta de desejo pelas atividades, pela ruminação de ideias, pela própria característica de “ir levando a vida”. 

Na minha ótica, Marta não tem transtorno bipolar. E mais, eu me pergunto o porquê disso aparecer na sinopse, mas não ser trabalhado no livro. Quem diagnosticou? Que repercussões isso teve na vida dela?

A narrativa me pareceu fragmentada: havia alguns momentos muito bons, nos quais a escrita fluía e era possível navegar suavemente, mas aí eram inseridas referências à autores, poetas, mitos etc e estas promoviam uma queda no ritmo da leitura. Como se você viesse andando rapidamente, envolto em seus pensamentos e, de repente, fosse obrigado a brecar, levando um choque de realidade. Como conhecimento geral eu acho excelente, mas a inserção disso na narrativa me incomodou e eu pensava: sim, mas eu queria pular isso e saber da história de Marta.

Vou ser cruel com o autor e, que ele me corrija se eu interpretei erroneamente, mas notei um ranço machista que pode ser evidenciado em vários momentos. A grande preocupação das mulheres era encontrar um rapaz bonito que usasse seus corpos; aliás, essa forma de falar “usar os corpos”, ou coisa parecida é usada no livro e eu achei pejorativo porque reforça o estereótipo da mulher objeto, tanto no sentido daquela de objetivos fúteis e passageiros, quanto aquela que se reduz à dar prazer aos homens. 

Outro exemplo se refere à forma de exposição da sexualidade feminina. De um lado a grande ênfase na virgindade associada à pureza X a vivência sexual fora do casamento ou desenvolvida de modo casual como marcada por uma descrição mais crua, fria e quase violenta. Não posso evitar pensar no desenrolar da vida sexual da protagonista como uma expressão de culpa e o desfecho da história como uma sentença condenatória. Confesso que o final me pegou de calças curtas. Fiquei surpresa, chocada e me perguntando: por quê?! Aqui, não se fosse estragar a surpresa, eu falaria sobre um estigma importantíssimo, completamente associado à moralidade base da obra, mas deixemos isso quieto.

Saindo do complexo estereótipo feminino, surpreendentemente ainda arraigado no século XXI, chegamos à outro estereotipo peso pesado: a loucura.

Fiz meu trabalho de conclusão de curso, na faculdade de Comunicação, sobre representações sociais da loucura e talvez, por isso, tenha me chamado a atenção a apresentação da loucura como próxima (ou mesmo sinônimo) da felicidade, o louco como aquele que rompe com as determinações sociais e, por isso, consegue ser mais livre e feliz que a maioria das pessoas.

Poeticamente falando isso pode ser belo, mas não encontra ressonância na experiência de sofrimento vivenciada pelos portadores de transtornos psiquiátricos e suas famílias.

Aliado a isso, há esta passagem:

Os loucos não julgam suas ações, não carregam glória ou culpa”. Pag 55.

Essa colocação me preocupou bastante, mesmo não tendo sido escrita pelo autor, sendo uma citação de outro pensador, porque aponta para uma incapacidade dos loucos, os quais prefiro chamar aqui de portadores de transtornos psiquiátricos.

Além de existir uma infinidade de transtornos, além da variedade de apresentação e manifestações dos mesmos, tal definição compromete o seu lugar de sujeito de direitos, de cidadão e, mais importante, de pessoa capaz de viver em sociedade e apreender as suas regras. Como estimular a sociedade a conviver com a diferença (afinal TODOS nós somos diferentes), quando além de ser doutrinada por anos acerca da incapacidade e da periculosidade do louco, ainda se traz esta afirmação em uma leitura contemporânea?

Entendo que duas páginas não seriam capazes de apresentar a teoria de Santo Agostinho (autor da frase acima citada), mas é exatamente essa apresentação resumida que pode dar margem à interpretações perigosamente errôneas.

Todos esses elementos parecem confirmar a minha impressão de uma grande influência da moral cristã na história do livro, mais especificamente, o fato de que a glória deve ser encontrada na resignação e que o encontro da felicidade é possível mesmo no sofrimento.


Ficha técnica:

Livro: Marta
Autor: Breno Melo
Editora: Schoba
Ano: 2010

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